Nos Estados Unidos, o governo federal vive mais um episódio de shutdown, a paralisação parcial da máquina pública em razão da falta de consenso no Congresso para aprovar o orçamento
A consequência imediata é a suspensão de serviços não essenciais, atrasos no pagamento de servidores e impacto direto sobre indicadores econômicos, tornando a disputa entre Executivo e Legislativo um fator de grande instabilidade institucional.
No Brasil, embora não exista a figura formal do shutdown, a dinâmica política em torno da aprovação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e da Lei Orçamentária Anual (LOA) também revela tensões recorrentes.
O adiamento dessas votações pode travar o processo legislativo. Ainda que o sistema brasileiro conte com o duodécimo para garantir o funcionamento mínimo de órgãos e poderes, esse mecanismo cobra apenas despesas correntes. Na prática, investimentos estratégicos e programas de maior impacto social ficam comprometidos até que o Congresso conclua sua deliberação.
Esse impasse legislativo tem reflexos rápidos na população. No Brasil, o impacto se manifesta quando obras de infraestrutura deixam de sair do papel e programas sociais sofrem atrasos. Em ambos os países, a política travada no Parlamento afeta diretamente a vida cotidiana dos cidadãos.
A comparação entre os dois casos revela como o orçamento ultrapassa o campo técnico e se consolida como instrumento central de governabilidade. Nos EUA, a rigidez do modelo leva a paralisias totais da máquina pública. No Brasil, a flexibilidade evita o colapso, mas gera disputas prolongadas e imprevisibilidade, que corroem a eficiência da gestão. Mais do que uma peça contábil, o orçamento expressa a capacidade das instituições de se organizar em torno de consensos mínimos para garantir a continuidade do Estado e a proteção da sociedade.
A boa política precisa assegurar responsabilidade fiscal e estabilidade institucional para garantir que serviços públicos essenciais não se tornem reféns de disputas momentâneas. O caso americano expõe a fragilidade de uma das maiores potências, enquanto o brasileiro mostra que a falta de clareza e de planejamento orçamentário gera efeitos concretos na população.
Em um contexto de polarização, lembrar dessa responsabilidade é fundamental. O orçamento não pode ser transformado apenas em moeda de troca política, mas deve ser tratado como pacto institucional mínimo capaz de assegurar governabilidade e estabilidade. Afinal, a boa política se mede menos pelo volume de embates retóricos e mais pela capacidade de manter o Estado em funcionamento a serviço da sociedade.
Texto: Mariana Pimentel – Consultora do CIM/FRB