A vez da sociedade

Se há uma coisa boa que se pode tirar de toda a crise política vivida pelo país, é a sensação de que a sociedade está mais ciente do seu papel. O profundo estado de reflexão no qual cada um de nós se encontra é o passo fundamental para nossa emancipação contra ideias políticas escravizantes que já duraram tempo demais.

O maior tabu brasileiro é a ideia de que as pessoas que aqui nascem não estão preparadas para serem livres, para experimentarem a democracia. Esse pensamento permeia toda a nossa história e está presente em boa parte da sociologia política brasileira.

Não por acaso, o país viveu tantos períodos autoritários na sua história. Nosso pensamento vigente sempre foi esse. Os brasileiros não possuem maturidade para se autogovernarem. Nesse sentido, seria necessário um período autoritário que acelerasse o desenvolvimento e “preparasse” as pessoas para o exercício da autonomia política.

Mesmo em períodos de democracia, é possível ver fortes traços desta ideologia. Por exemplo, veja o discurso de esquerda, que tenta criar um monopólio da sensibilidade social. De repente, só um partido (ou pior, uma pessoa) pode representar a redenção de pobres, minorias, etc. Esse discurso é tão totalizante que nega aos outros atores políticos sequer o sentimento de humanidade.

Só há solidariedade nas suas fileiras, pela sua via. O problema é que, pela “sensibilidade social” dispensada, as pessoas devem empenhar nada menos do que suas almas e inteligência.

Não foi por acaso que as forças de esquerda saíram do poder como saíram. Ao admitirem terem “feito o diabo” para ganharem as últimas eleições, assinaram a confissão de que dão pouca bola para a autonomia das pessoas. Enganam a sociedade para o seu próprio bem, assim dizem.

O problema é que não há evolução possível dessa forma. Não se faz uma nação de cima para baixo. O Brasil possui inúmeras experiências de que uma sociedade não pode ser parida por um Estado.

A nação, o sentimento de comunidade, o conjunto de referências que criam a sensação de pertencimento é, antes de tudo, um ato de vontade de indivíduos. Da mesma forma que um judeu ou um árabe fazem questão de manterem seus vínculos com seu povo, mesmo a milhares de quilômetros de distância da sua terra, a constituição da nacionalidade é um ato de liberdade, de querer se manter ligado.

No Brasil, o direito de pertencer por vontade sempre foi negado. Tentativas e mais tentativas de fabricar uma identidade sempre fracassaram porque, ao se debaterem com a realidade, as pessoas percebiam que elas não eram aquilo que era mostrado na TV.

Como sabemos, o resultado dessa negação é o estranhamento, mesmo estando dentro de casa. As pessoas não veem seus valores nem suas cores reais nas novelas ou nos caminhos escolhidos pelos partidos. Isso acontece quando o poder constituído não valoriza a vontade e a capacidade dos cidadãos.

Por isso, esta crise – que poderia ser muito bem chamada de “mãe de todas as crises” – não será resolvida com um novo presidente ou partido político. Só poderemos sair dela se tivermos capacidade de andarmos eretos e de cabeça erguida. É preciso impor fortes limites à capacidade do Estado de regular nossas vidas.

Os brasileiros devem repactuar entre si uma autovalorização. Focarem as condições básicas para que cada um dependa o mínimo possível do Estado. Para que cada um possa escolher o seu jeito de ser feliz, sem ter que ficar refém de líderes e falsos profetas de toda ordem.

Por isso, 2018 deve marcar a vez da sociedade.

Renato Junqueira – presidente da Fundação Republicana Brasileira