Redes de exploração de menores não surgem no vazio. Elas prosperam quando o crime consegue se esconder entre silêncio familiar, baixa capacidade institucional de detectar sinais e descontinuidade de políticas públicas
O caso do piloto Sergio Antonio Lopes, preso em São Paulo (SP) sob suspeita de chefiar uma rede de abuso sexual infantil, lembra que a violência pode se prolongar quando prevenção e denúncia não funcionam (AGÊNCIA BRASIL, 2026).
O caso Jeffrey Epstein expôs uma engrenagem parecida: recrutamento, facilitação por terceiros e uso de status social para reduzir suspeitas. O caso evidencia como redes de exploração podem se sustentar por meio de poder, intermediação e demora institucional (UNITED STATES, 2019a; UNITED STATES, 2019b).
No Brasil, o debate precisa sair do tabu e entrar no campo da proteção. Em 2023, foram registradas 83.988 vítimas de estupro e estupro de vulnerável (FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2024). Por muito tempo, ensinamos crianças a temer “estranhos”, mas os dados mostram outra realidade. Entre vítimas menores de 14 anos, 63,3% dos autores são familiares e 65,1% dos crimes ocorreram dentro de casa, em 2023 (FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2024).
A dimensão do problema também aparece na saúde pública. Entre 2015 e 2021, o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) registrou 202.948 notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes, e 2021 foi o maior número da série analisada (BRASIL, 2024). Já o Disque 100 registrou 657,2 mil denúncias de violações de direitos humanos em 2024, indicando pressão por acolhimento e encaminhamento, embora denúncia não seja sinônimo de crime comprovado (BRASIL, 2025).
É aqui que entram as políticas públicas. Começa na prevenção, com educação para autoproteção, linguagem adequada e cultura de confiança dentro de casa. Passa por serviços preparados para acolher e encaminhar, sem revitimizar, como prevê a Lei 13.431/2017 (BRASIL, 2017). E termina com investigação eficiente, responsabilização e proteção social. Vulnerabilidade e ausência de Estado também alimentam redes criminosas.
A política é caminho porque transforma indignação em rede de proteção: orçamento, integração de bases, equipes treinadas e avaliação de resultados. Abuso e exploração são uma realidade social, e o silêncio só favorece o agressor.
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