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El Niño: o fenômeno natural que pode mudar o clima, afetar a economia e pressionar países

Com previsão de fortalecimento no segundo semestre, o aquecimento anormal das águas do Pacífico reacende alertas sobre secas, enchentes, perdas agrícolas, aumento de preços e os limites da adaptação climática em um planeta mais quente

O El Niño voltou ao centro das preocupações climáticas globais. A possibilidade de fortalecimento do fenômeno no segundo semestre deste ano reacendeu alertas de meteorologistas, governos, produtores rurais e economistas sobre seus efeitos em diferentes partes do planeta. Embora seja um fenômeno natural, conhecido pela ciência há décadas, seus impactos se tornaram cada vez mais preocupantes em um mundo marcado pelas mudanças climáticas, pelo crescimento urbano desordenado e pela maior dependência econômica de cadeias produtivas sensíveis ao clima.

O El Niño faz parte de um sistema maior chamado El Niño Oscilação Sul, conhecido pela sigla ENOS. Esse sistema envolve alterações na temperatura da superfície do Oceano Pacífico equatorial e mudanças na circulação dos ventos e da atmosfera. Em condições normais, os ventos alísios empurram águas quentes do Pacífico em direção à Ásia e à Oceania, enquanto águas mais frias sobem próximas à costa oeste da América do Sul. Quando esses ventos enfraquecem, a água quente se desloca para o centro e o leste do Pacífico, alterando a distribuição de calor e umidade na atmosfera. É esse aquecimento anormal das águas superficiais que caracteriza o El Niño.

O fenômeno costuma ocorrer de maneira irregular, normalmente a cada dois ou sete anos, e pode durar de nove meses a dois anos, dependendo de sua intensidade. Além disso, não acontece sempre da mesma forma. Há eventos fracos, moderados e muito fortes, capazes de reorganizar padrões de chuva, temperatura e ventos em escala planetária. Por isso, meteorologistas acompanham continuamente as temperaturas do Oceano Pacífico, a pressão atmosférica e o comportamento dos ventos para identificar sua formação e estimar seus possíveis impactos.

A previsão para o período 2026/2027 preocupa porque centros internacionais de monitoramento climático e reportagens especializadas já apontam a possibilidade de um episódio forte. Dados citados por veículos internacionais, como a NOAA (cujo nome em português é Administração Nacional Oceânica e Atmosférica), indicam uma chance relevante de que o evento alcance intensidade elevada entre o fim de 2026 e o início de 2027, período em que seus efeitos costumam se tornar mais evidentes. Em alguns países, ele tende a provocar chuvas acima da média e enchentes. Em outros, pode gerar secas prolongadas, ondas de calor e perdas agrícolas. A Austrália, partes da Ásia, regiões da África e da América do Sul costumam estar entre as áreas mais vulneráveis. No Brasil, os impactos também são desiguais. Historicamente, episódios de El Niño estão associados ao maior volume de chuvas no Sul, ao risco de estiagem em áreas do Norte e do Nordeste e a alterações no regime de temperatura em diferentes regiões. Isso não significa que o fenômeno produza sempre os mesmos resultados, mas indica tendências que ajudam governos e setores produtivos a se prepararem.

No campo econômico, os efeitos podem ser expressivos. A agricultura é uma das áreas mais sensíveis, já que o excesso ou falta de chuva afetam o plantio, a colheita, a produtividade e o abastecimento. Culturas como soja, milho, arroz, café e frutas podem sofrer impactos diferentes conforme a região. Quando a produção diminui ou a logística é prejudicada por enchentes, os preços dos alimentos tendem a subir, pressionando a inflação. No Brasil, economistas consultados pelo Banco Central já apontam preocupação com a possibilidade de o El Niño elevar a inflação em 2026 e 2027, especialmente por meio dos alimentos.

O impacto financeiro não se limita ao campo. A geração de energia, o transporte, o abastecimento de água e até os seguros podem ser afetados. Secas reduzem reservatórios e pressionam sistemas elétricos dependentes de hidrelétricas; enchentes danificam estradas, pontes e cidades; ondas de calor elevam consumo de energia e aumentam os riscos à saúde pública. Dessa maneira, o El Niño deixa de ser apenas um fenômeno meteorológico e passa a ser também um fator de planejamento econômico.

A pergunta mais importante, porém, é se o El Niño é culpa ou não da ação humana. A resposta exige bastante cuidado. O fenômeno em si é natural e faz parte da variabilidade climática do planeta. Ele existia muito antes da industrialização e continuará existindo mesmo depois. Portanto, não é correto afirmar que o ser humano “criou” o El Niño. O que a ciência aponta, entretanto, é que o aquecimento global provocado pela emissão de gases de efeito estufa pode tornar seus efeitos mais severos ou mais difíceis de administrar. Em um planeta já mais quente, um evento natural de aquecimento no Pacífico pode ocorrer sobre uma base climática mais extrema, ampliando os riscos de recordes de temperatura, secas, incêndios e chuvas intensas. Em outras palavras, o El Niño é natural, mas seus impactos hoje encontram sociedades mais vulneráveis em muitos aspectos. Cidades impermeabilizadas sofrem mais com enchentes. Áreas agrícolas pressionadas pela seca perdem produtividade com mais facilidade. Países pobres têm menos recursos para adaptação. E populações vulneráveis são as primeiras a sentir os impactos de alimentos mais caros, da falta de água ou de desastres climáticos.

A preparação, portanto, é fundamental. Sistemas de alerta, previsão meteorológica, estoques estratégicos, planejamento agrícola, obras de drenagem, proteção de encostas e políticas de segurança alimentar podem reduzir os danos. A vantagem atual é que a ciência consegue identificar sinais do El Niño com maior antecedência do que no passado, permitindo que governos, empresas e comunidades se organizem melhor.

O fenômeno mostra como o clima conecta oceanos, agricultura, economia e vida cotidiana. Ele não é um ‘castigo’ provocado diretamente pela ação humana, mas seus efeitos são agravados por escolhas humanas feitas ao longo do tempo. A diferença entre desastre e prevenção pode estar justamente na capacidade de compreender que fenômenos naturais sempre existiram, mas que sociedades mais preparadas, sustentáveis e menos vulneráveis sofrem menos quando a natureza muda de ritmo.

 

Texto: Arnaldo F. Vieira – Ascom Subseção/SP

Crédito da imagem: NOAA/EUA

 

Fontes:

Satélite da Nasa mostra El Niño se intensificando no Oceano Pacífico  – https://super.abril.com.br/ciencia/satelite-da-nasa-mostra-el-nino-se-intensificando-no-oceano-pacifico/

El Niño pode agravar crise no agro e aumentar o endividamento rural, alerta especialista – https://www.canalrural.com.br/economia/el-nino-pode-agravar-crise-no-agro-e-aumentar-o-endividamento-rural-alerta-especialista/

El Niño tem 80% de chance de ser de intensidade entre moderada e forte – https://revistapesquisa.fapesp.br/el-nino-tem-80-de-chance-de-ser-de-intensidade-entre-moderada-e-forte/

Entenda como o El Niño vai influenciar o inverno brasileiro – https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/entenda-como-o-el-nino-vai-influenciar-o-inverno-brasileiro/

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