Criada para reduzir fraudes e tornar a apuração mais rápida e segura, a urna eletrônica completa três décadas como um dos principais símbolos da modernização da Justiça Eleitoral brasileira
Em ano de eleição, a urna eletrônica volta naturalmente ao centro das atenções. Muito além do equipamento utilizado pelos eleitores no dia da votação, ela representa uma transformação iniciada há três décadas no processo eleitoral brasileiro. Em 2026, a urna eletrônica completa 30 anos de utilização, marcando um período em que o país substituiu gradualmente a votação em papel por um sistema informatizado que mudou a forma de votar, apurar e fiscalizar as eleições.
Para compreender a importância dessa mudança, é preciso olhar para o passado. Durante boa parte da história republicana, as eleições brasileiras eram realizadas por meio de cédulas de papel e apuração manual. Esse modelo tornava o processo lento e bastante suscetível a falhas e fraudes. Erros na contagem dos votos, extravio de urnas, adulteração de documentos eleitorais e outras irregularidades faziam parte de uma realidade que alimentava desconfianças sobre o resultado das eleições. A criação da Justiça Eleitoral, em 1932, representou o primeiro grande esforço para organizar e dar maior credibilidade ao sistema eleitoral brasileiro. Nas décadas seguintes, novas regras e mecanismos de fiscalização foram sendo incorporados. Ainda assim, a apuração manual continuava exigindo milhares de pessoas envolvidas diretamente na contagem dos votos, o que aumentava a possibilidade de erros humanos e atrasava a divulgação dos resultados.
Foi nesse contexto que nasceu a urna eletrônica. Desenvolvida por técnicos da própria Justiça Eleitoral, ela foi utilizada pela primeira vez nas eleições municipais de 1996, inicialmente por parte do eleitorado. A experiência foi considerada bem-sucedida e, poucos anos depois, o sistema passou a ser adotado em todo o território nacional, tornando o Brasil um dos primeiros países do mundo a informatizar integralmente suas eleições. O principal objetivo da nova tecnologia era reduzir ao máximo a intervenção humana nas etapas mais sensíveis do processo eleitoral. Com a informatização da votação, da apuração e da totalização dos votos, buscava-se eliminar oportunidades de manipulação que existiam durante o sistema manual. Além disso, o novo modelo trouxe uma vantagem imediatamente percebida pelos eleitores: a rapidez na divulgação dos resultados. Aquilo que antes podia levar vários dias passou a ser concluído poucas horas após o encerramento da votação.
Upgrades e fiscalização – Ao longo desses 30 anos, a urna eletrônica passou por sucessivas atualizações tecnológicas. Os equipamentos evoluíram em desempenho, acessibilidade e mecanismos de segurança. Atualmente, pessoas com deficiência visual, por exemplo, contam com recursos de áudio e identificação em braile, enquanto eleitores com outras necessidades específicas encontram adaptações que ampliam a autonomia durante o voto.
Outro aspecto que marcou essa evolução foi o fortalecimento dos mecanismos de fiscalização. Antes de cada eleição, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) disponibiliza o código-fonte dos sistemas para inspeção por instituições previamente habilitadas, entre elas universidades, Ministério Público, Polícia Federal, Forças Armadas, OAB e partidos políticos. Também são realizados testes públicos de segurança e auditorias destinadas a verificar o funcionamento dos equipamentos e dos programas utilizados durante o processo eleitoral. Esses procedimentos procuram garantir que diferentes instituições possam acompanhar o desenvolvimento do sistema e verificar seu funcionamento antes da realização das eleições.
Após a votação, outros mecanismos de auditoria permitem conferir a correspondência entre os votos registrados nas urnas e os boletins emitidos ao final da votação, reforçando a transparência do processo.
Ao longo dessas três décadas, o equipamento também se tornou um dos símbolos da transformação digital da administração pública brasileira. A informatização das eleições demonstrou que processos complexos poderiam ser executados com maior agilidade e eficiência quando apoiados por soluções tecnológicas desenvolvidas especificamente para essa finalidade. Naturalmente, como ocorre com qualquer tecnologia de grande impacto social, o sistema eleitoral eletrônico também passou a ser objeto de debates públicos. Nos últimos anos, discussões sobre segurança digital, formas de auditoria e transparência ganharam espaço no cenário político. Independentemente dessas divergências, especialistas destacam que o constante aperfeiçoamento dos mecanismos de fiscalização e das rotinas de verificação tornou-se parte integrante da evolução do próprio sistema eleitoral brasileiro.
Ao completar 30 anos, a urna eletrônica representa mais do que uma inovação tecnológica. Ela simboliza uma mudança na forma como o país organiza um dos principais pilares da democracia: o exercício do voto. Ao substituir um modelo manual por um sistema informatizado, o Brasil reduziu etapas sujeitas à intervenção humana, acelerou a divulgação dos resultados e consolidou uma cultura permanente de aperfeiçoamento técnico e institucional. Mais do que acompanhar a evolução de um equipamento, revisitar a história da urna eletrônica significa compreender como tecnologia, administração pública e participação cidadã passaram a caminhar juntas. Em um cenário de rápidas transformações digitais, a experiência brasileira mostra que inovação também pode ser aplicada ao fortalecimento das instituições e ao aprimoramento dos processos democráticos.
Texto: Arnaldo F. Vieira – Ascom Subseção/SP
Crédito da imagem: Agência Republicana de Comunicação (ARCO)
Fontes:
30 anos da urna eletrônica: uma revolução que acabou com as fraudes e modernizou as eleições brasileiras – https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Julho/30-anos-da-urna-eletronica-uma-revolucao-que-acabou-com-as-fraudes-e-modernizou-as-eleicoes-brasileiras-2
Saiba como a urna eletrônica garante a soberania do voto – https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-07/saiba-como-urna-eletronica-garante-soberania-do-voto
Quem fabrica as urnas eletrônicas? Entenda como funciona a produção e por que o TSE diz que não há registro de fraude em 30 anos – https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/07/31/quem-fabrica-as-urnas-eletronicas-entenda-como-funciona-a-producao-e-por-que-o-tse-diz-que-nao-ha-registro-de-fraude-em-30-anos.ghtml