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Jovens e política: entre a desilusão com as instituições e novas formas de participação

Pesquisas revelam baixo envolvimento da juventude com partidos e estruturas tradicionais, mas crescimento do interesse pelo voto mostra que a aparente apatia política pode esconder uma transformação na maneira como as novas gerações participam da vida pública

A imagem de jovens ocupando ruas, universidades e movimentos políticos marcou diferentes momentos da história brasileira. Das mobilizações estudantis durante a ditadura militar ao movimento pelas Diretas Já e às manifestações pelo impeachment do presidente Fernando Collor, a juventude esteve associada, durante décadas, à contestação e à participação política. Nos últimos anos, entretanto, tornou-se comum a percepção de que as novas gerações estariam menos interessadas pela política. Os números mostram que existe algum fundamento nessa impressão, mas revelam também uma realidade mais complexa.

Um dos sinais mais claros aparece na relação dos jovens com os partidos políticos. Dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que cerca de 1% dos eleitores brasileiros com até 24 anos possui filiação partidária. Entre outubro de 2022 e outubro de 2023, o número de filiados entre 16 e 24 anos caiu aproximadamente 14%. A redução ocorreu justamente depois de uma eleição presidencial que havia registrado forte mobilização do eleitorado jovem. O afastamento dos partidos, entretanto, não significa necessariamente desinteresse pelo voto. Em 2022, ocorreu exatamente o contrário. O comparecimento dos jovens de 16 e 17 anos cresceu 52,3% em relação à eleição presidencial de 2018. Mais de 2,1 milhões estavam aptos a votar, e cerca de 1,7 milhão compareceram às urnas. Foi uma reversão importante depois de uma sequência de quedas no interesse pelo alistamento eleitoral registrada a partir de 2010.

A recuperação continuou nas eleições municipais seguintes. Em 2024, o Brasil chegou a 1,83 milhão de eleitores de 16 e 17 anos, crescimento de 78% em relação ao pleito municipal de 2020. Considerando também aqueles entre 18 e 24 anos, aproximadamente 20 milhões de jovens estavam aptos a participar da eleição. Os números ajudam a desmontar a ideia de uma juventude simplesmente apática. O que parece estar acontecendo é uma mudança na relação com a política institucional. Muitos jovens continuam interessados em questões públicas, mas demonstram menor disposição para participar das estruturas tradicionais que, durante décadas organizaram essa participação.

Parte desse comportamento pode ser explicada pela própria percepção sobre as instituições. Pesquisas de opinião realizadas no Brasil ao longo dos últimos anos mostram que a confiança em partidos e instituições políticas enfrenta dificuldades entre diferentes grupos da população. Portanto, a desilusão não é exclusivamente juvenil. Os mais jovens chegam à vida adulta inseridos em uma sociedade na qual críticas ao funcionamento da política já fazem parte do debate cotidiano. Há, ainda, uma diferença geracional importante. Para uma parcela das gerações anteriores, participar politicamente significava frequentar reuniões partidárias, integrar sindicatos ou movimentos estudantis organizados. Para muitos jovens atuais, essa participação acontece também por outros caminhos. Uma campanha nas redes sociais, uma mobilização ambiental ou a defesa pública de determinada causa podem ser percebidas como formas legítimas de atuação política, mesmo quando não existe qualquer vínculo partidário.

As redes sociais ampliaram essa transformação. Elas permitiram que qualquer pessoa pudesse participar de discussões públicas sem depender das organizações tradicionais. Ao mesmo tempo, criaram um ambiente marcado pela velocidade e por debates frequentemente polarizados. O jovem encontra muito mais conteúdo político do que gerações anteriores, mas também é exposto a confrontos permanentes, ataques pessoais e desinformação. Esse ambiente pode produzir um efeito contraditório. Ao mesmo tempo em que aproxima a política do cotidiano, pode aumentar a rejeição ao próprio debate. Quando as discussões são apresentadas principalmente como conflitos entre grupos adversários, a política deixa de ser percebida como instrumento para resolver problemas coletivos e passa a ser associada a enfrentamentos constantes.

Outro problema está na dificuldade de transformar participação digital em envolvimento permanente. Compartilhar uma publicação ou manifestar apoio a uma causa exige muito menos comprometimento do que participar de um partido, acompanhar uma sessão legislativa ou atuar regularmente em uma organização da sociedade civil. A internet ampliou a possibilidade de manifestação, mas isso não significa automaticamente maior participação nas instituições democráticas. A própria Justiça Eleitoral tem procurado aproximar esse público do processo político. Campanhas voltadas para o primeiro título de eleitor foram intensificadas nos últimos anos e utilizaram justamente as redes sociais como principal instrumento. Em 2024, mais de 83 mil títulos foram emitidos para adolescentes entre 15 e 17 anos apenas durante a Semana do Jovem Eleitor, número cerca de quatro vezes maior que o registrado na ação equivalente de 2020.

Esses resultados mostram que estímulos concretos podem produzir respostas. O problema talvez esteja menos em convencer os jovens de que política é importante e mais em demonstrar que sua participação pode produzir consequências reais. Quando as instituições parecem distantes, os partidos não conseguem dialogar com as novas gerações e o debate público se resume à disputa permanente entre campos adversários, o afastamento torna-se uma reação compreensível. Também seria precipitado imaginar que exista uma juventude homogênea. Jovens possuem diferentes condições sociais e interesses. Alguns acompanham intensamente a política pelas redes, enquanto outros permanecem completamente afastados. Há aqueles que participam de movimentos ligados ao meio ambiente, à educação ou a questões locais sem sequer considerar essas atividades como participação política.

O desafio das instituições democráticas, portanto, talvez não seja simplesmente fazer com que os jovens voltem a participar da política da mesma maneira que seus pais ou avós participaram. É compreender que as formas de engajamento mudaram e criar caminhos para transformar o interesse por causas públicas em participação democrática duradoura. Em um país onde pessoas entre 16 e 24 anos representam milhões de eleitores, esse diálogo se torna ainda mais importante em um ano de eleição presidencial. A aparente apatia juvenil pode esconder não o abandono da política, mas uma insatisfação com a maneira como ela tradicionalmente se apresenta. Aproximar essa geração da democracia exigirá mais do que campanhas pedindo que os jovens votem. Será necessário mostrar que participar também significa ter condições reais de influenciar as decisões que definirão o país no qual eles viverão nas próximas décadas.

 

Texto: Arnaldo F. Vieira – Ascom Subseção/SP

Crédito da imagem: Magnific

 

Fontes:

O jovem e o desinteresse pela política – https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/119341/o-jovem-e-o-desinteresse-pela-politica

Por que os jovens estão se afastando da política? – https://www.jornaltradicao.com.br/regiao/colunistas/por-que-os-jovens-estao-se-afastando-da-politica/

Por que a juventude está distante da política? – https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/118997/por-que-a-juventude-esta-distante-da-politica

Democracia brasileira perde sem a participação da juventude – https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/opiniao/2024/09/15/democracia-brasileira-perde-sem-a-participacao-da-juventude.htm

 

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