Experiências internacionais mostram mulheres à frente de governos e parlamentos em momentos decisivos, enquanto pesquisas procuram entender se uma representação mais equilibrada também modifica prioridades e políticas públicas
Durante muito tempo, a discussão sobre mulheres e política esteve concentrada em uma pergunta: como fazer com que elas consigam chegar aos espaços de poder? A questão continua atual, mas o crescimento da participação feminina trouxe outra pergunta igualmente importante. O que acontece depois que elas chegam lá?
A resposta exige algum cuidado. Não existe uma forma essencialmente feminina de governar. Mulheres podem pertencer a diferentes correntes ideológicas, defender programas econômicos opostos e adotar estilos de liderança bastante distintos. Associar automaticamente uma gestora à sensibilidade social ou à honestidade, por exemplo, significaria substituir uma desigualdade por um estereótipo.
Ainda assim, estudar a atuação feminina na administração pública tornou-se importante porque mulheres permanecem sub-representadas justamente nos lugares onde decisões são tomadas. Em 2026, elas ocupam apenas 27,4% das cadeiras dos parlamentos nacionais e 22,4% dos postos ministeriais no mundo. Apenas 28 países possuem mulheres exercendo a chefia de Estado ou de Governo.
Quando conseguem alcançar essas posições, suas trajetórias ajudam a mostrar que a liderança feminina pode assumir características bastante diversas. Na Libéria, Ellen Johnson Sirleaf tornou-se, em 2006, a primeira mulher democraticamente eleita para a Presidência de um país africano. Recebeu uma nação profundamente afetada por anos de guerra civil e conduziu parte importante do processo de reconstrução institucional. Durante seus governos, a dívida externa liberiana foi substancialmente reduzida e foi criada uma comissão nacional de combate à corrupção. Sirleaf também se tornou uma voz internacional pela participação das mulheres na construção da paz e recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2011.
Na Nova Zelândia, Jacinda Ardern ficou internacionalmente conhecida pela maneira como conduziu o país após os atentados contra duas mesquitas de Christchurch, em março de 2019. Sua resposta combinou uma comunicação pública marcada pela solidariedade às vítimas com decisões políticas concretas. Apenas seis dias depois dos ataques, seu governo anunciou a proibição de armas semiautomáticas de estilo militar e rifles de assalto. Outras mudanças na legislação foram posteriormente propostas.
Ardern também procurou incorporar ao planejamento governamental indicadores que não se restringissem ao crescimento econômico. O chamado Wellbeing Budget, apresentado em 2019, colocou o bem-estar da população entre os critérios para s definição das prioridades orçamentárias. Entre as medidas anunciadas estavam investimentos destinados à redução da pobreza infantil e ao enfrentamento da violência familiar.
Outra experiência ocorreu em Taiwan. Tsai Ing-wen tornou-se, em 2016, a primeira mulher a ocupar a Presidência do território. Em seus dois mandatos, até 2024, conduziu reformas previdenciárias e ampliou políticas de cuidados de longa duração diante do envelhecimento populacional. Seu governo também investiu na transformação industrial e no fortalecimento do setor de semicondutores, ao mesmo tempo em que enfrentava o aumento das tensões com a China. Foi ainda durante sua administração que Taiwan se tornou o primeiro lugar da Ásia a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Os exemplos mostram algo que frequentemente desaparece quando se discute liderança feminina. Mulheres no poder não atuam apenas nas chamadas “pautas femininas”. Elas comandam políticas econômicas, respondem a crises de segurança e participam de decisões geopolíticas. Também conduzem reformas administrativas e precisam lidar com os mesmos conflitos que fazem parte de qualquer governo.
Mesmo assim, pesquisas indicam que uma representação política mais equilibrada pode influenciar determinadas prioridades. Uma revisão de estudos sobre o tema identificou que, principalmente nos países em desenvolvimento, uma maior representação feminina esteve associada a melhorias na oferta de políticas de educação e saúde. Nos países desenvolvidos, os efeitos sobre o volume total de gastos públicos foram menos evidentes, embora tenham sido encontradas mudanças em decisões específicas e nos próprios debates parlamentares.
Outro estudo, baseado em uma amostra internacional, encontrou associação entre maior presença de mulheres nos Legislativos e melhor oferta de determinados serviços públicos. O resultado permaneceu mesmo quando os pesquisadores consideraram fatores como desenvolvimento econômico e características dos regimes políticos.
Isso não significa que exista uma agenda feminina universal. Parte dessas diferenças pode estar relacionada às experiências sociais que mulheres historicamente tiveram antes de entrar na política. Temas pouco representados em espaços predominantemente masculinos podem ganhar novos interlocutores quando o perfil de quem ocupa esses ambientes se torna mais diverso.
Há ainda uma característica reveladora na distribuição atual do poder. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) Mulheres mostram que ministras continuam sendo mais frequentemente designadas para áreas relacionadas aos direitos humanos, à igualdade de gênero e à proteção social. Os homens, por outro lado, permanecem majoritários em setores tradicionalmente associados ao núcleo duro do Estado. Isso ocorre, por exemplo, nas áreas econômicas, de defesa e de segurança.
A diferença sugere que chegar ao governo não significa necessariamente alcançar todos os espaços de decisão. Uma mulher pode integrar um gabinete e ainda encontrar barreiras para comandar ministérios historicamente considerados mais estratégicos. O mesmo acontece nos parlamentos, onde a quantidade de representantes não revela, sozinha, quem ocupa presidências de comissões ou participa das estruturas internas que controlam a agenda legislativa.
Também é necessário evitar outra generalização frequente: a ideia de que mais mulheres no poder produziria automaticamente governos menos corruptos. Uma meta-análise publicada em 2026, reunindo 57 estudos quantitativos, encontrou associação estatística entre maior representação feminina e menores níveis de corrupção. Os próprios resultados, entretanto, variam conforme a metodologia empregada.
Outros trabalhos encontraram efeitos diferentes entre Executivo e Legislativo ou nenhuma vantagem inerente às mulheres quando são comparadas situações semelhantes de governo. Essa cautela talvez seja uma das lições mais importantes da discussão. O valor da presença feminina na administração pública não precisa ser justificado pela obrigação de provar que mulheres governam melhor do que homens. Democracias representativas pressupõem que diferentes parcelas da sociedade possam participar também das decisões.
Depois de décadas discutindo como abrir as portas da política para as mulheres, talvez o passo seguinte seja compreender que representatividade não termina quando elas conseguem atravessá-las. Ela se completa quando encontram condições para exercer poder de fato, participar das grandes decisões e ser avaliadas pelo resultado de seus governos e mandatos, exatamente como deve acontecer com qualquer liderança em uma democracia.
Texto: Arnaldo F. Vieira – Ascom Subseção/SP
Crédito da imagem: Magnific
Fontes:
Women in Politics: 2026 – https://www.ipu.org/resources/publications/infographics/2026-03/women-in-politics-2026
Saiba mais sobre as três ganhadoras do Nobel da Paz – https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2011/10/111007_nobel_perfis_pu
Governo de Jacinda Ardern deu exemplos positivos ao mundo; entenda – https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/governo-de-jacinda-ardern-deu-exemplos-positivos-ao-mundo-entenda/
O país menos corrupto do mundo é governado por uma mulher – https://www.congressoemfoco.com.br/coluna/120963/o-pais-menos-corrupto-do-mundo-e-governado-por-uma-mulher