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Do voto ao emprego: como decisões políticas chegam ao mercado de trabalho

Impostos, infraestrutura, educação e ambiente de negócios ajudam a determinar onde empresas investem e empregos são criados, mostrando que decisões tomadas pelo poder público podem chegar diretamente à rotina do trabalhador

 

A relação entre política e trabalho nem sempre é percebida imediatamente. Uma eleição acontece em outubro, enquanto uma contratação pode ocorrer meses ou anos depois. Entre esses dois momentos, porém, existe uma cadeia de decisões públicas capaz de estimular investimentos, dificultá-los ou modificar completamente as oportunidades disponíveis para trabalhadores e empresas.

Por isso, dizer que a política está presente em boa parte das atividades realizadas entre o momento em que uma pessoa acorda e a hora em que volta para casa não é apenas uma figura de linguagem. O ônibus utilizado para chegar ao trabalho depende de políticas de mobilidade. A formação profissional disponível em determinada cidade passa por decisões educacionais. A empresa que pretende contratar precisa lidar com impostos e normas estabelecidas pelo Estado. Até o tempo gasto diariamente em um congestionamento pode ser consequência da maneira como os governos planejaram (ou deixaram de planejar) o crescimento das cidades.

O emprego, evidentemente, não depende apenas dos governos. Empresas contratam quando existe demanda por seus produtos e quando acreditam que ampliar a produção será vantajoso. Juros, tecnologia e condições da economia internacional também interferem nesse cálculo. Ainda assim, muitas das condições que cercam essas decisões passam direta ou indiretamente pela política.

A tributação é um exemplo. Todo Estado precisa arrecadar recursos para financiar serviços públicos, mas a maneira como cobra esses impostos também produz efeitos econômicos. Um sistema complexo aumenta o tempo e os recursos que as empresas precisam dedicar ao cumprimento de obrigações. Quando a incidência tributária distorce decisões de produção ou torna determinados investimentos menos competitivos, parte desse custo alcança também as possibilidades de expansão dos negócios.

Isso torna a discussão mais ampla do que simplesmente defender impostos maiores ou menores. O desafio está também na qualidade da tributação. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que a complexidade dos tributos brasileiros sobre bens e serviços prejudicou a neutralidade do sistema e afetou a estrutura produtiva. A reforma tributária em implantação procura enfrentar parte desse problema. Segundo o Banco Mundial, a simplificação dos impostos indiretos deverá reduzir custos de conformidade e contribuir para ganhos de produtividade.

Algo semelhante acontece com os custos relacionados à contratação. Encargos trabalhistas ajudam a financiar direitos e mecanismos de proteção social, mas fazem parte da conta realizada por uma empresa antes de ampliar sua equipe. O debate responsável, portanto, não está em simplesmente eliminar proteções ou aumentar obrigações. Está em encontrar um equilíbrio que preserve direitos sem criar barreiras desnecessárias à formalização e à geração de postos de trabalho.

Há ainda decisões políticas cujos efeitos sobre o trabalhador aparecem fora da empresa. Uma delas é o investimento em infraestrutura. Imagine alguém que recebe uma proposta de emprego do outro lado de uma grande cidade. O salário é adequado e a vaga corresponde à sua qualificação. Se o deslocamento exigir quatro horas diárias, porém, aquela oportunidade pode deixar de ser viável. Nesse caso, o problema do trabalhador não está na inexistência do emprego, mas na impossibilidade prática de chegar até ele.

Uma política pública de transporte pode modificar essa realidade. Segundo o Banco Mundial, investimentos realizados na Linha 4 do Metrô de São Paulo reduziram em 48% o tempo de viagem nas áreas atendidas e dobraram a acessibilidade a empregos. A expansão atualmente em execução até Taboão da Serra deverá elevar de 14% para mais de 21% a parcela de empregos que moradores próximos às novas estações conseguem alcançar em até uma hora utilizando transporte público.

O exemplo ajuda a perceber por que uma obra pública não deve ser avaliada apenas pelo concreto que foi entregue. Quando bem planejada, uma estrada pode reduzir o custo de transportar mercadorias. Uma rede de internet pode permitir que empresas se instalem onde antes não conseguiam operar. Um sistema eficiente de transporte aproxima trabalhadores de oportunidades que estavam geograficamente distantes.

O contrário também pode ocorrer. Obras mal planejadas ou permanentemente atrasadas produzem custos que nem sempre aparecem no orçamento original. Congestionamentos prolongados aumentam o tempo de deslocamento e prejudicam a produtividade. Infraestrutura deteriorada encarece a logística das empresas. O Banco Mundial aponta justamente as deficiências de planejamento e gestão entre os fatores que historicamente reduziram a qualidade dos investimentos brasileiros em infraestrutura.

Outra ligação entre política e emprego passa pela educação. Quando governos decidem onde abrir cursos técnicos ou quais competências devem receber maior atenção na formação profissional, estão interferindo na capacidade futura de trabalhadores ocuparem vagas que ainda serão criadas. Esse problema ganhou importância com a digitalização e com as transformações trazidas pela inteligência artificial.

Não basta, portanto, criar empregos se uma parcela da população não possuir formação para ocupá-los. Da mesma maneira, formar milhares de profissionais para atividades com pouca demanda pode produzir frustração e desperdício de recursos. O Banco Mundial coloca justamente a aproximação entre competências e oportunidades profissionais entre os desafios brasileiros para elevar a produtividade e gerar empregos melhores.

Há também políticas capazes de criar mercados praticamente novos. A transição energética é um exemplo contemporâneo. Incentivos à energia renovável e à eletrificação dos transportes podem estimular cadeias produtivas que exigirão engenheiros, técnicos e trabalhadores industriais. Um programa apoiado pelo Banco Mundial para ampliar o uso de ônibus elétricos no Brasil prevê efeitos sobre empregos na fabricação dos veículos e na implantação da infraestrutura necessária. Novas oportunidades também deverão surgir posteriormente na operação e manutenção desses sistemas.

Mas governos também precisam cuidar das próprias contas. Um Estado permanentemente desequilibrado pode perder capacidade de investir. Dependendo das circunstâncias, problemas fiscais também contribuem para incertezas que atingem empresas e consumidores. Por outro lado, um ajuste realizado sem considerar seus efeitos sobre investimentos e serviços essenciais pode prejudicar a atividade econômica. O desafio da política econômica está justamente em administrar escolhas cujos resultados raramente são simples ou imediatos.

Experiências recentes de estados brasileiros ajudam a demonstrar essa relação. Programas acompanhados pelo Banco Mundial combinaram reorganização fiscal com investimentos direcionados a infraestrutura e setores produtivos. Segundo a instituição, 17 operações realizadas desde 2019 produziram US$ 3,95 bilhões em economias fiscais. Parte do espaço recuperado permitiu ampliar investimentos capazes de apoiar atividades econômicas e geração de empregos.

Nenhuma dessas políticas garante, isoladamente, que uma pessoa conseguirá emprego. O mercado de trabalho resulta da combinação de inúmeras forças. É justamente por isso que atribuir cada contratação ou demissão exclusivamente a um presidente, governador ou prefeito seria uma simplificação. Mas o extremo oposto também é equivocado: imaginar que política e emprego sejam assuntos separados.

O Brasil vive atualmente um exemplo dessa complexidade. Depois de forte geração de empregos nos últimos anos, o Banco Mundial projeta desaceleração do crescimento econômico em 2026. Para sustentar avanços no mercado de trabalho, a instituição aponta como prioridades a melhoria do ambiente de negócios e da educação. Também destaca a necessidade de investimentos em infraestrutura e de ganhos de produtividade.

É nesse ponto que a relação com o voto se torna mais clara. O eleitor não escolhe diretamente quantas vagas serão abertas no comércio de sua cidade ou quantas pessoas uma indústria contratará no ano seguinte. Ele escolhe, porém, representantes que participarão das decisões sobre impostos, orçamento, infraestrutura e educação. São esses mesmos representantes que aprovarão leis capazes de modificar o ambiente no qual empresas e trabalhadores tomam suas próprias decisões.

Por isso, acompanhar a política não precisa significar transformar cada conversa cotidiana em uma disputa partidária. Significa compreender que decisões coletivas produzem consequências individuais. Às vezes, essa consequência aparece na abertura de uma fábrica. Em outras, está no curso técnico que prepara alguém para uma nova profissão. Pode surgir em um sistema tributário mais simples que facilita um investimento ou em uma linha de transporte que permite aceitar uma vaga antes inacessível.

Entre a urna e o emprego existe uma distância considerável, mas não existe um muro. A política ajuda a construir o ambiente econômico em que as oportunidades surgem. Compreender essa relação talvez seja uma das formas mais concretas de perceber que participar das decisões públicas não diz respeito apenas a quem gosta de política. Diz respeito também a quem trabalha, procura emprego, empreende e depende diariamente das condições que essas decisões ajudam a criar.

 

Texto: Arnaldo F. Vieira – Ascom Subseção/SP

Crédito da imagem: Magnific

 

Fontes:

Dados do World Bank Group – https://www.worldbank.org/ext/pt/country/brazil

Geração de empregos formais: as políticas para a criação de vagas e a redução do desemprego – https://iclnoticias.com.br/conhecimento/geracao-de-empregos-formais/

How to create jobs for the world’s 1.2 billion new workers – https://blogs.worldbank.org/en/voices/how-to-create-jobs-for-the-world-s-1-2-billion-new-workers

Tributação e produtividade : como a reforma tributária pode afetar o crescimento econômico? – https://repositorio.ipea.gov.br/items/571c4aea-689c-4cd1-9ede-15b6eb828497

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