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Redes sociais e política: quando o mandato, a campanha e o debate público passam pela tela do celular

Das prestações de contas dos representantes às estratégias eleitorais e à mobilização das militâncias, as plataformas digitais transformaram a relação entre políticos e cidadãos.

Durante boa parte do século XX, a relação entre representantes políticos e a população dependia principalmente de alguns canais bastante conhecidos. Discursos eram acompanhados pela imprensa, campanhas utilizavam rádio, televisão, comícios e material impresso, enquanto o cidadão que desejasse entrar em contato com um parlamentar precisava procurar seu gabinete, participar de uma reunião partidária ou encaminhar alguma manifestação pelos meios institucionais disponíveis.

Em poucos anos, esse modelo mudou completamente. Hoje, um deputado pode apresentar um projeto pela manhã, explicar sua posição em um vídeo publicado à tarde e responder aos comentários dos seguidores poucas horas depois. Prefeitos utilizam as redes para divulgar obras e serviços, parlamentares transmitem sessões diretamente de seus celulares, ministros anunciam medidas por meio de vídeos e partidos mantêm equipes especializadas em produzir conteúdos para diferentes plataformas.

Essa transformação acompanha a própria presença da internet na sociedade brasileira. Em 2025, 90,5% das pessoas com dez anos ou mais utilizaram a internet no país, aproximadamente 168,7 milhões de brasileiros. Ao mesmo tempo em que a vida cotidiana migrou para o ambiente digital, a comunicação política também passou a ocupar esse espaço de maneira permanente. O resultado foi o surgimento daquilo que pesquisadores já chamam de “mandatos digitais”. Estudo publicado pela Revista de Informação Legislativa, do Senado Federal, analisou gabinetes da Câmara dos Deputados e constatou que 65% dos gabinetes pesquisados adotavam estratégias específicas para diferentes redes sociais. Facebook, Instagram, YouTube, WhatsApp, Telegram, LinkedIn e outras plataformas deixaram de funcionar apenas como instrumentos de divulgação e passaram a integrar a própria estratégia de comunicação dos representantes.

Essa mudança produziu um efeito importante. Antes, a comunicação política dependia fortemente da mediação dos veículos jornalísticos. Uma declaração precisava ser considerada notícia para alcançar grande parte da população. Nas redes sociais, políticos e instituições passaram a conversar diretamente com milhões de pessoas, sem depender dessa intermediação. Para os representantes, isso significa a possibilidade de explicar votos, apresentar projetos, prestar contas do mandato, divulgar agendas e responder rapidamente a acontecimentos públicos. Para os cidadãos, significa acompanhar de maneira mais próxima aquilo que seus representantes fazem, questioná-los publicamente e acessar informações que anteriormente circulavam apenas em ambientes políticos ou administrativos.

A relação, entretanto, funciona nos dois sentidos. A mesma rede utilizada para mostrar aquilo que um político faz permite que ele acompanhe, praticamente em tempo real, as reações da população. Curtidas, comentários, compartilhamentos e visualizações tornaram-se indicadores utilizados por equipes políticas para compreender quais assuntos despertam maior interesse e quais mensagens encontram maior receptividade entre determinados públicos. Isso modificou inclusive a maneira de produzir comunicação política. Uma pesquisa desenvolvida no âmbito da Câmara dos Deputados em 2025 analisou justamente como parlamentares com alto engajamento trabalham suas publicações no Instagram, considerando frequência, temas, emoções e estratégias utilizadas para alcançar o público.

Se essa transformação já é perceptível durante os mandatos, ela se torna ainda mais evidente em período eleitoral. Nas eleições de 2026, por exemplo, 5.493 dos 7.679 candidatos a deputado federal haviam informado contas no Instagram à Justiça Eleitoral, o equivalente a aproximadamente 72% das candidaturas ao cargo. Antes mesmo do início do horário eleitoral no rádio e na televisão, as redes já haviam se transformado em um dos principais espaços da campanha.

A legislação eleitoral acompanha essa mudança. Desde 16 de agosto, a propaganda eleitoral pode ser realizada na internet por candidatos, partidos, federações e coligações, inclusive em redes sociais e aplicativos de mensagens, desde que respeitadas as regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral. A legislação também permite manifestações espontâneas de eleitores em favor de candidaturas, desde que não envolvam situações proibidas pelas normas eleitorais.

É justamente nesse espaço que aparece outro personagem cada vez mais importante das campanhas contemporâneas: a militância digital. Militantes sempre fizeram parte da política. Historicamente, distribuíram materiais, participaram de reuniões, organizaram manifestações e ajudaram a mobilizar eleitores. As redes sociais ampliaram enormemente o alcance desse trabalho. Uma única publicação pode ser compartilhada por milhares de apoiadores em poucos minutos, fazendo com que determinada mensagem alcance públicos que uma estrutura tradicional de campanha dificilmente conseguiria atingir com a mesma velocidade.

Sob essa perspectiva, as redes podem ampliar a participação política. Pessoas que dificilmente frequentariam reuniões partidárias podem acompanhar debates, defender causas, organizar mobilizações e participar da discussão pública utilizando apenas um celular. A comunicação deixa de seguir exclusivamente do candidato para o eleitor e passa a circular também entre os próprios cidadãos. O problema aparece quando essa mobilização deixa de funcionar como participação e passa a estimular ambientes de hostilidade permanente. Grupos muito identificados com determinadas candidaturas podem passar a tratar qualquer crítica como ataque, compartilhar conteúdos sem verificar sua origem ou transformar adversários políticos em inimigos pessoais. O debate público perde espaço para disputas entre comunidades digitais que procuram mais reafirmar suas próprias convicções do que compreender argumentos diferentes.

As próprias características das plataformas ajudam a explicar esse fenômeno. Conteúdos que provocam surpresa, indignação ou emoção possuem grande capacidade de circulação. Em uma campanha eleitoral, isso cria incentivos para mensagens simplificadas, ataques pessoais e informações retiradas de contexto. A velocidade com que uma publicação se espalha também dificulta a correção posterior. Uma informação falsa pode alcançar milhares de pessoas antes que uma agência de checagem, um veículo jornalístico ou a própria Justiça Eleitoral consiga esclarecê-la.

Talvez a maior transformação esteja justamente no fato de que a política deixou de acontecer apenas durante as eleições. Para muitos representantes, a comunicação digital tornou o mandato uma espécie de diálogo permanente com o eleitorado. Cada votação, discurso, visita, projeto ou posicionamento pode transformar-se imediatamente em conteúdo para as redes. A campanha eleitoral também deixou de começar apenas quando surgem os santinhos, os programas de televisão ou os comícios. A presença digital construída durante anos pode se transformar em uma das principais estruturas políticas de uma candidatura.

Nesse cenário, redes sociais, política e cidadania tornaram-se praticamente inseparáveis. O desafio está em preservar aquilo que as plataformas possuem de mais democrático (a possibilidade de participação e de acesso direto à informação), sem permitir que a velocidade, a manipulação tecnológica e a disputa permanente por atenção enfraqueçam justamente aquilo que deveria estar no centro em qualquer processo eleitoral: a capacidade do cidadão de formar sua própria opinião a partir de informações confiáveis.

 

Texto: Arnaldo F. Vieira – Ascom Subseção/SP

Crédito da imagem: ROBIN WORRALL / Unsplash/Reprodução

 

Fontes:

Proporção de usuários da internet no país ultrapassou 90% da população de 10 anos ou mais, em 2025 – https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/47408-proporcao-de-usuarios-da-internet-no-pais-ultrapassou-90-da-populacao-de-10-anos-ou-mais-em-2025

Presença parlamentar nas mídias sociais: a estruturação dos mandatos digitais na Câmara dos Deputados – https://www12.senado.leg.br/ril/edicoes/58/232/ril_v58_n232_p57

O impacto das redes sociais na formação da vontade política: um desafio à democracia – https://conjur.com.br/2025-jan-24/o-impacto-das-redes-sociais-na-formacao-da-vontade-politica-um-desafio-a-democracia/

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