Na última terça-feira (22), o Brasil participou da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, com uma delegação que levou à conferência temas que têm permeado os principais acontecimentos da política doméstica e internacional.
Em seu discurso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfatizou a defesa da soberania e criticou o que classificou como interferências externas em processos políticos nacionais. A defesa da soberania está prevista na própria Carta da ONU, mas a atuação multilateral também pressupõe a cooperação entre Estados em questões que ultrapassam fronteiras.
O ponto de tensão está na forma como esse princípio vem sendo mobilizado politicamente. Desde a imposição das primeiras tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros, em 2025, o governo passou a incorporar com maior frequência a defesa da soberania e a rejeição a interferências externas em seu discurso.
Na Assembleia Geral, essa retórica ganhou dimensão eleitoral ao ser associada às eleições brasileiras e à atuação de governos estrangeiros. A menos de duas semanas do primeiro turno, Lula mencionou a soberania do processo eleitoral e interferências externas, além de temas presentes em sua campanha, como o combate ao crime organizado, o Pix e a distribuição de renda.
A escolha dos temas aproxima a posição diplomática do debate político doméstico e pode dialogar com países que enfrentam disputas semelhantes. Contudo, essa convergência não permite afirmar que o discurso tenha sido estruturado especificamente para formar uma coalizão internacional em torno dessas pautas.
A relação com os Estados Unidos acrescentou outra dimensão ao encontro. A expectativa de uma reunião entre Lula e Donald Trump não se concretizou durante a Assembleia, enquanto negociações comerciais e divergências entre os dois governos permanecem. A relação bilateral também atravessa um novo ciclo de tensão após as tarifas impostas pelos Estados Unidos em julho de 2026, que se somaram às medidas adotadas no ano anterior.
A mesma sobreposição entre a agenda de governo e a disputa eleitoral aparece nas medidas domésticas recentes. O reajuste de 15,04% do Bolsa Família, anunciado 17 dias antes do primeiro turno, a avaliação para a disponibilização de medicamentos contra a obesidade no Sistema Único de Saúde (SUS) e as novas medidas de restrição e enfrentamento ao mercado ilegal de apostas (bets) evidenciam como políticas de impacto direto sobre a população ocupam espaço na agenda do governo às vésperas da eleição.
Embora possuam justificativas próprias de política pública, o momento em que são anunciadas, os públicos diretamente beneficiados e a própria comunicação oficial conferem a essas iniciativas uma dimensão política evidente. Seus possíveis efeitos eleitorais, portanto, constituem uma variável que não pode ser desconsiderada na análise da atuação do governo.
Por – Núcleo de Estudos e Pesquisas (NEP) da Fundação Republicana Brasileira (FRB).