Os resultados das eleições estaduais alemãs reforçaram o crescimento do partido Alternative für Deutschland (AfD – Alternativa para a Alemanha) e aumentaram a pressão sobre o governo do chanceler Friedrich Merz.
A Alemanha é uma federação composta por 16 estados, os Länder, que possuem parlamentos e governos próprios. Nas eleições estaduais, os eleitores definem a composição desses parlamentos por meio de um sistema proporcional. Por esse motivo, não há uma única eleição estadual em todo o país, assim, cada estado realiza sua própria eleição para definir a composição de seu Parlamento, em datas diferentes.
Como os governos precisam contar com maioria parlamentar, os partidos frequentemente precisam formar coalizões para governar. Assim, obter a maior votação não significa necessariamente assumir o governo. Quando nenhum partido alcança maioria suficiente, as negociações entre as demais legendas tornam-se decisivas para definir quem governará.
Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a AfD alcançou cerca de 38% dos votos, mais que dobrando sua votação em relação à eleição anterior, quando havia alcançado aproximadamente 17%. Duas semanas antes, em outro estado, Saxônia-Anhalt, o partido havia alcançado quase 44% dos votos.
O Sozialdemokratische Partei Deutschlands (SPD – Partido Social Democrata), da governadora Manuela Schwesig, ficou próximo, com cerca de 35,5%. Já a Christlich Demokratische Union Deutschlands (CDU – União Democrata Cristã), partido de Merz, obteve aproximadamente 5%, seu pior resultado estadual no pós-guerra.
Embora a AfD tenha recebido a maior parcela dos votos, o resultado não garante ao partido o controle do governo estadual. Schwesig permanece em condições de continuar à frente do Executivo por meio de uma coalizão com outras legendas, enquanto os demais partidos mantêm resistência a uma aliança com a AfD.
O avanço da AfD ocorre em um contexto mais amplo de insatisfação política e econômica, associado à perda de confiança nos partidos de centro após sucessivas crises. Entre os fatores apontados nesse cenário estão os efeitos da crise migratória, da pandemia, da guerra na Ucrania e da pressão sobre o custo de vida.
O governo Merz também enfrenta dificuldades para implementar reformas prometidas para reativar a economia, fortalecer a defesa e reduzir a imigração irregular. Fatores externos, como conflitos internacionais, preços de energia e maior concorrência chinesa, adicionam pressão a economia alemã.
Para Friedrich Merz e a CDU, os resultados aprofundam um desafio estratégico. A legenda precisa responder à perda de eleitores e ao crescimento da AfD, especialmente no leste do país, ao mesmo tempo que procura preservar sua posição no campo de centro-direita.
O quadro também evidencia uma transformação do sistema partidário alemão. O fortalecimento da AfD e de partidos à esquerda, combinado ao enfraquecimento de forças tradicionais, como CDU e SPD, em determinadas regiões, torna o cenário mais fragmentado. Com isso, a formação de maiorias passa a depender de colisões mais complexas, aumentando a distância entre vencer uma eleição, construir maioria parlamentar e efetivamente governar.
Por – Núcleo de Estudos e Pesquisas (NEP) da Fundação Republicana Brasileira (FRB).