A confiança pública é um componente importante da legitimidade das instituições democráticas.
Em uma democracia, as instituições não dependem apenas de regras formais para funcionar. Sua autoridade também está relacionada à percepção de que suas decisões são tomadas dentro das competências estabelecidas, podem ser compreendidas e contestadas pelos canais previstos no sistema.
Quando a confiança se enfraquece de forma persistente, aumenta-se o espaço para questionamentos sobre a legitimidade das instituições e sobre as próprias regras que organizam a vida democrática. Nesse contexto, pesquisas recentes indicam um cenário de desgaste na percepção sobre o Supremo Tribunal Federal (STF), ao mesmo tempo em que uma parte expressiva da população continua reconhecendo sua importância para o funcionamento da democracia.
Dados da pesquisa Quaest, divulgada em setembro de 2026, apontam um aumento da desconfiança em relação ao STF. O percentual de entrevistados que afirmam não confiar na Corte passou de 46%, em agosto, para 56%, em setembro. No mesmo período, a parcela que declara confiar muito no STF caiu de 18% para 9%, enquanto 30% afirmam confiar pouco na instituição. A mudança registrada em apenas um mês chama atenção tanto pelo crescimento da desconfiança quanto pela redução daqueles que afirmam confiar muito na Corte.
Os resultados mostram que o reconhecimento institucional e a avaliação crítica sobre a atuação do Tribunal podem coexistir. O debate também alcança juristas, economistas e representantes de diferentes setores, que têm discutido temas como transparência, segurança jurídica, limites entre os Poderes, decisões individuais e concentração de poder.
Tribunais não dependem de popularidade para exercer suas atribuições constitucionais. Entretanto, a confiança social pode influenciar a percepção de legitimidade e autoridade das instituições. Quando decisões são percebidas como imprevisíveis ou quando surgem questionamentos sobre os limites de atuação entre os Poderes, elas podem se tornar objeto frequente de controvérsia, ampliando as tensões políticas e os questionamentos sobre as regras institucionais.
É nesse contexto que a previsibilidade das decisões ganha importância. Ela não significa a ausência de divergências, mas a existência de regras claras e mecanismos institucionais capazes de administrar conflitos. Segurança jurídica, transparência e respeito às competências institucionais contribuem para que as decisões sejam compreendidas e contestadas pelos canais previstos no próprio sistema democrático.
A confiança, nesse sentido, não significa concordância com cada decisão tomada. Representa, antes, a percepção de que as instituições atuam dentro de regras conhecidas e de que eventuais divergências podem ser resolvidas pelos mecanismos institucionais existentes.
O tema ganha relevância diante das eleições de 2026, quando a Justiça Eleitoral terá papel central na organização e arbitragem do processo. Em um ambiente de maior desconfiança institucional, a percepção de imparcialidade e previsibilidade das decisões torna-se particularmente relevante para a credibilidade do processo eleitoral e para a aceitação das decisões pelos diferentes atores políticos e sociais.
O debate, portanto, vai além de apoiar ou criticar o Supremo. A questão central é como preservar a autoridade das instituições e a confiança pública necessária para que conflitos políticos sejam processados dentro das regras democráticas.
Em períodos de intensa disputa política, a solidez das instituições depende não apenas de sua capacidade de exercer competências constitucionais, mas também da existência de confiança suficiente para que as decisões sejam reconhecidas como parte legítima do funcionamento da democracia.
Por Núcleo de Estudos e Pesquisas (NEP) da Fundação Republicana Brasileira (FRB).