Pesquisa do Aláfia Lab mostra que política e eleições lideram os assuntos associados à desinformação no país, enquanto o avanço da Inteligência Artificial aumenta a pressão sobre agências de checagem, plataformas digitais e a própria Justiça Eleitoral.
A desinformação já faz parte do cotidiano da maioria dos brasileiros, mas sua presença se torna especialmente preocupante durante os períodos eleitorais. Uma pesquisa nacional realizada pelo Aláfia Lab mostra que política e eleições são, com ampla diferença, os temas mais associados à circulação de notícias falsas no país. Às vésperas do início oficial da campanha de 2026, os resultados acendem um alerta para um pleito que poderá enfrentar um volume de conteúdos enganosos maior e mais sofisticado do que o observado em disputas anteriores.
O estudo “Como os brasileiros percebem a circulação da desinformação e o uso da Inteligência Artificial” ouviu 1.512 pessoas em todas as regiões do Brasil. A pesquisa foi realizada pelo Instituto IDEIA, em setembro de 2025, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais. Segundo o levantamento, 43% dos entrevistados afirmaram ter encontrado informações falsas relacionadas à política e às eleições nos 12 meses anteriores. O resultado ficou bem acima do segundo tema mais citado, celebridades e influenciadores, mencionado por 24%.
A percepção cresce entre pessoas mais velhas e com maior escolaridade. Entre os entrevistados com ensino superior, metade afirma ter encontrado fake news sobre política e eleições. O percentual cai para 34% entre aqueles com ensino fundamental. Isso não significa necessariamente que determinados grupos estejam menos expostos, mas pode indicar diferenças na capacidade de reconhecer uma informação enganosa.
O relatório também mostra que 55% dos brasileiros encontram conteúdos falsos sempre ou com alguma frequência na internet. Apenas 15% dizem se deparar raramente ou nunca com esse tipo de informação. A desinformação, portanto, deixou de ser um episódio isolado. Passou a integrar o ambiente no qual parte da população forma opiniões e toma decisões.
Esse quadro se torna ainda mais delicado em um ano eleitoral. As eleições brasileiras já enfrentaram ondas de boatos em 2018 e 2022, quando aplicativos de mensagens ganharam protagonismo na comunicação política. Em 2026, porém, há um elemento adicional: ferramentas de Inteligência Artificial (IA) conseguem produzir imagens, vozes e vídeos falsos com aparência cada vez mais convincente. Um conteúdo manipulado já pode simular a fala de um candidato ou criar um acontecimento que nunca existiu.
A Justiça Eleitoral atualizou suas regras para enfrentar esse novo cenário. Todo conteúdo eleitoral produzido ou significativamente alterado por IA precisa apresentar uma identificação clara. O uso de deepfakes para favorecer ou prejudicar candidaturas é proibido. Também haverá uma restrição especial nas 72 horas anteriores à votação e nas 24 horas posteriores, período no qual novos conteúdos sintéticos não poderão ser publicados, republicados ou impulsionados.
Ainda assim, a regulamentação não elimina o problema. A velocidade de circulação costuma ser maior do que a capacidade de resposta das instituições. Uma informação falsa pode alcançar milhares de pessoas antes de ser analisada, desmentida ou removida. Mesmo depois da correção, parte de seus efeitos pode permanecer, especialmente quando o conteúdo confirma crenças políticas previamente construídas.
Os dados do Aláfia Lab revelam outra fragilidade. Embora 58% dos entrevistados afirmem conseguir identificar uma notícia falsa, eles reconhecem que ainda possuem dúvidas em algumas situações. Apenas 29% dizem fazer essa identificação com facilidade. A maior parte confia na própria percepção de incoerências ou nos comentários deixados por outros usuários nas redes sociais.
As ferramentas profissionais de verificação ainda ocupam um espaço reduzido. Somente 17% dos entrevistados afirmam recorrer a agências de checagem de fatos, enquanto aplicativos usados para verificar imagens são utilizados por 18%. Esse baixo índice mostra que grande parte da população tenta avaliar a veracidade de uma informação sem recorrer a fontes especializadas.
Quando encontram um conteúdo suspeito, 47% simplesmente o ignoram. Apenas 32% procuram confirmar se a informação é verdadeira. A denúncia às plataformas aparece em somente 10% das respostas. Ignorar pode impedir um novo compartilhamento, mas não interrompe a circulação da falsidade, que continua disponível para alcançar outros usuários.
É justamente nesse ponto que os sistemas de checagem deverão ser cada vez mais demandados. Veículos de comunicação, agências especializadas e universidades terão de acompanhar um fluxo informacional muito mais intenso. A tarefa não será apenas classificar uma publicação como falsa, mas explicar sua origem e oferecer elementos que permitam ao público compreender o processo da manipulação.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também ampliou sua cooperação com plataformas digitais. A Corte firmou acordos com empresas como Google, Meta, TikTok, Telegram, X e Kwai. O objetivo é facilitar denúncias e ampliar o acesso dos eleitores às informações oficiais. O Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral (SIADE) permite que qualquer cidadão comunique conteúdos potencialmente prejudiciais à integridade do pleito.
Essas ações serão importantes, mas não substituem a responsabilidade individual. Antes de compartilhar uma publicação, o eleitor precisa observar sua origem e verificar se a informação aparece em veículos reconhecidos. Também é necessário desconfiar de mensagens alarmistas ou de conteúdos que estimulam uma reação imediata. A desinformação costuma explorar justamente a pressa e a emoção.
As eleições de 2026 reúnem condições para se tornar as mais desafiadoras da história brasileira no enfrentamento às fake news. Isso não significa que todo conteúdo político nas redes seja falso, nem que o ambiente digital represente apenas riscos. A internet também ampliou o acesso à informação e aproximou candidatos da população. O problema surge quando a liberdade de comunicação é transformada em oportunidade para manipular a realidade.
Mais do que proteger candidaturas ou instituições, combater a desinformação significa preservar o direito do eleitor de decidir com base em fatos. Em uma eleição marcada pela presença da Inteligência Artificial e pela velocidade das redes sociais, a qualidade da democracia dependerá também da capacidade coletiva de interromper a circulação de informações falsas antes que ela se transforme em verdade para milhões de pessoas.
Texto: Arnaldo F. Vieira – Ascom Subseção/SP
Crédito da imagem: Magnifc
Fontes:
Como os Brasileiros percebem a circulação da desinformação e o uso da Inteligência Artificial. De autoria do Aláfia Lab. 2026 – https://share.google/qsnrmcgukzJ4cLbhT
Política é o tema mais associado a fake news no Brasil, aponta pesquisa – https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/06/03/pesquisa-fake-news-politica.ghtml
Política é o tema mais associado à fake news, diz pesquisa – https://www.infomoney.com.br/politica/politica-e-o-tema-mais-associado-a-fake-news-diz-pesquisa/
Laboratório de pesquisa independente e multidisciplinar – https://alafialab.org/