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Entre o campo e as urnas: Como a Copa do Mundo influencia o cenário político brasileiro

Em um ano marcado por eleições e futebol, a Copa do Mundo volta a ocupar espaço central na vida nacional e reacende debates sobre identidade, emoção coletiva e possíveis impactos no ambiente político

A coincidência entre Copa do Mundo e calendário eleitoral cria, no Brasil, um ambiente singular, no qual política e cultura popular se entrelaçam de forma intensa. Em 2026, essa sobreposição volta a ocorrer, trazendo à tona uma relação histórica entre futebol e vida pública que vai além do entretenimento. Em um país onde o futebol ocupa posição central na construção da identidade nacional, grandes eventos esportivos tendem a mobilizar emoções coletivas capazes de influenciar o clima social e, indiretamente, o cenário político.

A relação entre futebol e política no Brasil é objeto de reflexão há décadas. O antropólogo Roberto DaMatta destacou, em seus estudos publicados no livro “A bola corre mais que os homens: duas Copas” (Editora Rocco, 2006), como o futebol funciona como um dos principais elementos simbólicos da sociedade brasileira, capaz de expressar valores, tensões e formas de organização social. Em sua análise, o futebol não é apenas um jogo, mas um ritual coletivo que revela traços profundos da cultura nacional, incluindo a forma como os brasileiros lidam com hierarquia, emoção e pertencimento.

Historicamente, governos e lideranças políticas buscaram se associar ao futebol como forma de reforçar legitimidade e proximidade com a população. O exemplo mais citado é a Copa do Mundo FIFA de 1970, durante o período militar, quando a conquista do tricampeonato foi amplamente utilizada como elemento de propaganda institucional. Desde então, a relação entre futebol e política permanece presente, ainda que em contextos democráticos e sob interpretações mais diversas.

No cenário contemporâneo, essa relação se torna mais difusa, mas não menos relevante. A Copa do Mundo mobiliza milhões de pessoas, altera rotinas, pauta o noticiário e cria uma atmosfera emocional que pode impactar o humor coletivo. Em um ambiente eleitoral, esse fator pode influenciar a percepção pública, ainda que de forma indireta. Momentos de euforia ou frustração associados ao desempenho da seleção nacional tendem a repercutir nas conversas cotidianas e na forma como os cidadãos se relacionam com temas públicos.

Especialistas em comunicação e política apontam que eventos de grande escala, como a Copa, podem funcionar como “marcos emocionais” dentro de um ciclo eleitoral. É o que também explica o jornalista Marcos Guterman em seu livro “O futebol explica o Brasil: Uma história da maior expressão popular do país” (Editora Contexto, 2009). Para ele, embora não determinem resultados eleitorais, os jogos podem alterar o ambiente simbólico em que as disputas acontecem, deslocando temporariamente a atenção do público e criando oportunidades ou desafios para candidatos e campanhas. Em um contexto de alta conectividade digital, essa dinâmica se intensifica, uma vez que as redes sociais amplificam reações, narrativas e disputas simbólicas em tempo real.

Outro aspecto relevante é o uso político indireto do futebol. Candidatos e lideranças costumam associar-se a símbolos esportivos, participar de eventos, comentar partidas e explorar a linguagem futebolística em discursos públicos. Expressões como “jogar em equipe”, “virar o jogo” ou “defender o país” são frequentemente utilizadas como metáforas políticas, reforçando a conexão entre esporte e comunicação pública.

Ao mesmo tempo, a Copa do Mundo também pode funcionar como espaço de crítica e contestação. Em diferentes momentos da história recente, grandes eventos esportivos foram acompanhados por manifestações sociais, questionamentos sobre gastos públicos e debates sobre prioridades nacionais. O caso das manifestações de 2013, em meio à realização da Copa das Confederações no Brasil, é um exemplo de como o futebol pode se tornar catalisador de tensões sociais e políticas.

No cenário atual, a relação entre futebol e política também passa pelas redes sociais. Torcedores, influenciadores e figuras públicas utilizam plataformas digitais para expressar opiniões que frequentemente misturam esporte e posicionamentos políticos. Essa interseção amplia o alcance do debate, mas também pode intensificar polarizações, já que símbolos esportivos passam a ser apropriados em disputas ideológicas.

Apesar dessas conexões, especialistas alertam que o impacto de uma Copa do Mundo sobre as eleições não deve ser interpretado de forma determinista. Fatores como economia, políticas públicas, desempenho de governos e campanhas eleitorais continuam sendo centrais na decisão do voto. O futebol atua mais como elemento de contexto, capaz de influenciar o ambiente emocional e simbólico, do que como fator decisivo isolado.

Ainda assim, a coincidência entre as Copas do Mundo e eleições oferece uma oportunidade única para observar como cultura, comunicação e política se articulam no Brasil. Em um país onde o futebol é parte fundamental da identidade coletiva, ignorar essa relação significa deixar de compreender uma dimensão importante da vida pública.

A Copa do Mundo de 2026, portanto, não será apenas um evento esportivo. Ela também funcionará como um pano de fundo simbólico para o processo eleitoral, refletindo e, em alguma medida, influenciando o humor social, as narrativas públicas e a forma como os brasileiros se enxergam enquanto nação. Entre o campo e as urnas, o jogo que se desenha é tanto esportivo quanto político.

Texto: Arnaldo F. Vieira – Ascom Subseção/SP

Crédito da imagem: Camisa da seleção: liberada — Divulgação

 

Para saber mais:

DAMATTA, Roberto. A bola corre mais que os homens: duas Copas.  Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2006.

GUTERMAN, Marcos. O futebol explica o Brasil: Uma história da maior expressão popular do país. São Paulo, 2009.

Futebol e eleição: o jogo nunca é igual – https://coletiva.net/colunas/futebol-e-eleicao-o-jogo-nunca-e-igual/

Futebol e política se discute, sim – Assista! – https://querepublicaeessa.an.gov.br/index.php/que-republica-e-essa/assuntos/som-e-acao/593-futebol-e-politica-se-discute-sim-assista

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