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Mulheres na política: uma participação que avançou nas urnas, mas ainda busca espaço no poder

Do reconhecimento do voto feminino, em 1932, à eleição da primeira mulher para a Presidência da República, a presença feminina transformou a política brasileira. Quase um século depois, porém, as mulheres são maioria entre os eleitores, mas continuam sub-representadas entre aqueles que ocupam os cargos eletivos

 

Durante grande parte da história brasileira, decidir os rumos políticos do país era uma prerrogativa essencialmente masculina. As mulheres estavam afastadas das eleições tanto como eleitoras quanto como candidatas. Essa realidade começou a mudar nas primeiras décadas do século XX, impulsionada por movimentos que reivindicavam o reconhecimento de direitos políticos e uma participação feminina mais efetiva na vida pública.

Algumas experiências pioneiras ocorreram antes mesmo da mudança nacional. Em 1927, uma legislação do Rio Grande do Norte abriu espaço para o alistamento feminino. No ano seguinte, Celina Guimarães Viana tornou-se uma das primeiras brasileiras a exercer o direito ao voto. Também em 1928, Alzira Soriano foi eleita prefeita de Lajes, no Rio Grande do Norte, tornando-se a primeira mulher a comandar uma prefeitura no Brasil e uma pioneira na América Latina. A transformação definitiva ocorreu durante o Governo Getúlio Vargas. O Código Eleitoral de 1932 reconheceu às mulheres o direito de votar e de serem votadas. A primeira eleição nacional organizada pela recém-criada Justiça Eleitoral e com participação feminina aconteceu no ano seguinte, para escolher os integrantes da Assembleia Nacional Constituinte. Entre mais de mil concorrentes, somente 19 eram mulheres. A médica paulista Carlota Pereira de Queirós foi eleita e tornou-se a primeira deputada federal do país.

Pouco depois, outras pioneiras começaram a ocupar espaços até então exclusivamente masculinos. Antonieta de Barros tornou-se a primeira mulher negra a exercer um mandato popular no Brasil. Décadas mais tarde, Eunice Michiles chegou ao Senado, em 1979, como suplente que assumiu o mandato. Somente em 1990 Júnia Marise e Marluce Gomes se tornariam as primeiras mulheres eleitas diretamente para o cargo de senadora. No Poder Executivo, outro marco ocorreu com Iolanda Fleming. Vice-governadora do Acre, ela assumiu o governo estadual em 1986 e tornou-se a primeira mulher a governar um estado brasileiro. O maior cargo político do país seria alcançado em 2010, quando Dilma Rousseff foi eleita a primeira mulher presidente da República. Ela seria reeleita quatro anos depois.

O avanço histórico, entretanto, não eliminou uma desigualdade que permanece visível. As brasileiras são maioria do eleitorado nacional desde 2008. Em 2026, dos mais de 158 milhões de cidadãos aptos a votar, aproximadamente 83,9 milhões são mulheres. Elas representam 52,84% dos eleitores. Essa maioria desaparece quando se observa quem disputa e, principalmente, quem vence as eleições. Em 2024, entre cerca de 456 mil candidaturas registradas, aproximadamente 155 mil eram femininas, o que corresponde cerca de 34% do total. Depois da votação, as mulheres representaram somente 13,2% das pessoas eleitas para as prefeituras e 18,2% para as câmaras municipais. Nas eleições gerais de 2022, 91 das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados foram conquistadas por mulheres, o equivalente a 17,7%.

A tentativa de reduzir essa diferença também passou pela legislação. Desde 1997, a Lei das Eleições estabelece mecanismos para ampliar a participação feminina nas candidaturas proporcionais. Depois de alterações posteriores, consolidou-se a regra segundo a qual cada partido ou federação deve preencher, no mínimo 30% e, no máximo, 70% das candidaturas com pessoas de cada sexo. Na prática, a medida estabeleceu um piso para a participação das mulheres nas chapas. A experiência mostrou, porém, que garantir espaço na lista de candidatos não era suficiente. Campanhas precisam de dinheiro, estrutura e visibilidade para se tornarem competitivas. Por isso, decisões posteriores passaram a assegurar recursos públicos e tempo de propaganda em proporção às candidaturas femininas, respeitado o mínimo legal. A Justiça Eleitoral também passou a combater as chamadas candidaturas fictícias, registradas apenas para cumprir formalmente a cota de gênero.

Os resultados começaram a aparecer, mas lentamente. Pesquisa apresentada em 2025 pelo Observatório Nacional da Mulher na Política, da Câmara dos Deputados, mostrou que, mesmo com o aumento do número de candidatas, os homens ainda possuíam quase três vezes mais chances de serem eleitos em condições equivalentes. As razões dessa diferença vão além da legislação eleitoral. Estudos desenvolvidos pela Câmara e pelo Senado apontam dificuldades de acesso ao financiamento e às estruturas partidárias. A violência política de gênero também aparece como obstáculo. Há ainda uma questão social mais profunda: a responsabilidade pelas tarefas domésticas e de cuidado continua recaindo de maneira desproporcional sobre as mulheres, reduzindo o tempo disponível para construir uma trajetória política.

O problema, portanto, não parece estar simplesmente na falta de interesse feminino pela política. As mulheres votam, participam de movimentos sociais, integram partidos e ocupam posições de liderança em diferentes áreas da sociedade. A dificuldade aparece na passagem entre essa participação e a conquista efetiva dos espaços onde as decisões políticas são tomadas.

Em quase um século, o Brasil percorreu uma longa distância desde a época em que uma mulher sequer podia votar. Hoje, elas formam a maioria do eleitorado, disputam todos os cargos públicos e já chegaram à Presidência da República. A diferença entre representar 52,84% dos eleitores e ocupar uma parcela ainda pequena dos cargos eletivos, entretanto, demonstra que essa trajetória permanece incompleta.

As cotas ajudaram a abrir portas que durante muito tempo permaneceram fechadas, mas a participação feminina não pode depender apenas do cumprimento de uma exigência legal. Quanto mais diferentes experiências da sociedade estiverem presentes nos espaços de decisão, maior será a capacidade da política de representar a própria população. Depois de conquistar o direito de escolher seus representantes, o desafio das mulheres brasileiras continua sendo ampliar também o direito de estar entre aqueles que são escolhidos.

 

Texto: Arnaldo F. Vieira – Ascom Subseção/SP

Crédito da imagem: Magnific

 

Fontes:

94 anos do voto feminino no Brasil: um direito conquistado com luta e transmitido entre gerações – https://portalpadrao.ufma.br/tvufma/noticias/94-anos-do-voto-feminino-no-brasil-um-direito-conquistado-com-luta-e-transmitido-entre-geracoes

Presidenciáveis traçam rotas distintas até o voto feminino – https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2026/08/7483457-presidenciaveis-tracam-rotas-distintas-ate-o-voto-feminino.html

Mulheres representam 34,8% das candidaturas registradas para as eleições de 2026 – https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/08/16/mulheres-candidaturas-eleicoes-2026.ghtml

O panorama feminino nas eleições 2026 – https://www.congressoemfoco.com.br/coluna/118037/o-panorama-feminino-nas-eleicoes-2026

 

 

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