Entenda por que a erradicação da pobreza extrema foi definida como o primeiro Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Conheça os números que motivaram essa decisão e as principais iniciativas adotadas pelo mundo e pelo Brasil para enfrentar esse desafio
A Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu “erradicar a pobreza em todas as suas formas e em todos os lugares” como o primeiro dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030. A escolha reflete um consenso internacional: eliminar a pobreza extrema é o maior desafio global e condição essencial para o desenvolvimento sustentável.
Ao adotar a Agenda 2030, em 2015, os países reconheceram que seria impossível avançar nos demais objetivos sem superar a pobreza, raiz de problemas como fome, doenças, desigualdade e conflitos sociais. O documento Transformando Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável declara: “Estamos decididos a libertar a raça humana da tirania da pobreza (…) comprometemo-nos que ninguém seja deixado para trás”.
A decisão de colocar a erradicação da pobreza como ODS nº 1 também se baseou na experiência dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), vigentes até 2015. O primeiro ODM previa reduzir pela metade a pobreza extrema, meta parcialmente alcançada. Entre 1990 e 2015, a proporção da população mundial em pobreza extrema caiu de 36% para cerca de 12%, retirando mais de 1 bilhão de pessoas da miséria em 25 anos; um avanço impulsionado principalmente pela Ásia. Ainda assim, cerca de 1 bilhão de pessoas continuavam sobrevivendo com menos de US$ 1,25 por dia. Diante disso, a ONU e o Banco Mundial estabeleceram a meta de eliminar a pobreza extrema até 2030, colocando-a no topo da nova agenda global.
Esforços globais
Para enfrentar o desafio, governos e organismos internacionais vêm adotando políticas que combinam crescimento econômico inclusivo, proteção social e investimentos em serviços básicos. O Banco Mundial defende que taxas de crescimento mais elevadas, associadas a políticas redistributivas, são essenciais para mudar a trajetória até 2030. Ao mesmo tempo, a ampliação de redes de proteção social é vista como fundamental. Durante a pandemia, países com sistemas robustos de auxílio emergencial conseguiram conter o aumento da pobreza, enquanto nações com menos recursos tiveram retrocessos mais graves.
No plano internacional, iniciativas como o Social Protection Floor (piso de proteção social), da ONU e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), incentivam os países a garantir um nível básico de renda e acesso a serviços essenciais. Diversos governos criaram programas de transferência de renda voltados aos mais vulneráveis, enquanto organismos multilaterais e ONGs financiam projetos de geração de emprego, agricultura sustentável e educação, reconhecendo as múltiplas dimensões da pobreza.
Experiências nacionais demonstram que é possível alcançar resultados expressivos. A China, por exemplo, retirou cerca de 800 milhões de pessoas da pobreza em quatro décadas, respondendo por mais de 75% da redução global nesse período. Combinando rápido crescimento econômico e políticas voltadas às áreas rurais mais pobres, o país erradicou a pobreza extrema em 2021, dez anos antes do prazo da Agenda 2030. Índia e México também se destacam com programas de proteção social em larga escala, que, aliados à melhora nos indicadores de saúde e educação, reduziram a vulnerabilidade intergeracional à pobreza.
É importante destacar que erradicar a pobreza vai além da dimensão econômica: é uma questão de direitos humanos e estabilidade social. A privação de renda e de acesso a necessidades básicas fere a dignidade humana e amplia desigualdades, que, por sua vez, podem gerar tensões e conflitos, retroalimentando a pobreza. Por isso, combater a pobreza é também uma forma de prevenir crises humanitárias e promover sociedades mais justas e pacíficas. A ONU reforça que alcançar o ODS 1 é essencial para o avanço dos demais, como educação de qualidade (ODS 4), redução das desigualdades (ODS 10) e paz (ODS 16).
No Brasil
Apesar dos avanços, o desafio permanece grande. Milhões de brasileiros ainda vivem com renda muito baixa ou sem acesso a serviços essenciais, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste e entre grupos historicamente vulneráveis, como comunidades rurais, população negra e famílias chefiadas por mulheres. Em 2021, cerca de 48% da população do Nordeste estava abaixo da linha de pobreza, contra 14% na região Sul. Para enfrentar essas disparidades, o país combina políticas nacionais, como transferências de renda, previdência social, valorização do salário mínimo e investimentos em saúde, educação e saneamento, com ações locais de inclusão produtiva e assistência social.
A erradicação da pobreza está no centro das agendas global e nacional por razões evidentes: trata-se de uma urgência moral, pois milhões de vidas estão em jogo, e de uma base indispensável para todos os demais avanços sociais e econômicos. Como reafirmou a ONU em 2015, acabar com a pobreza extrema é uma condição prévia para um futuro sustentável e justo. Os números mostram a dimensão do desafio, mas também comprovam que o progresso é possível. O caminho até 2030 exige acelerar esforços, compartilhar conhecimento e ampliar recursos para que o ODS nº 1, “acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares”, deixe de ser um ideal e se torne uma realidade para todos.
Texto: Arnaldo F. Vieira – Ascom Subseção/SP
Revisão: Tamires Lopes – Ascom FRB
Crédito da imagem: Internet