Com mais da metade da humanidade vivendo em áreas urbanas e a expansão das periferias intensificando desigualdades, a meta de cidades e comunidades sustentáveis tornou-se um eixo para habitação, mobilidade, saneamento, resiliência climática e qualidade de vida
Os movimentos conhecidos como Primavera Árabe marcaram um dos períodos mais intensos de mobilização popular no Oriente Médio contemporâneo. Iniciados no final de 2010, esses protestos se espalharam rapidamente por diversos países do norte da África e do mundo árabe, colocando em xeque regimes autoritários, estruturas políticas rígidas e modelos econômicos incapazes de responder às demandas sociais de populações majoritariamente jovens.
O estopim da Primavera Árabe ocorreu na Tunísia, em dezembro de 2010, quando o vendedor ambulante Mohamed Bouazizi ateou fogo ao próprio corpo após ter sua mercadoria apreendida por autoridades locais. O episódio simbolizou o descontentamento com o desemprego, a corrupção e a repressão estatal, desencadeando protestos que levaram à queda do presidente Zine El Abidine Ben Ali, no poder havia mais de duas décadas. A rápida disseminação das manifestações mostrou que as tensões vividas na Tunísia eram compartilhadas por grande parte do mundo árabe.
Em 2011, protestos em massa atingiram o Egito, culminando na renúncia do presidente Hosni Mubarak após 30 anos no poder. Milhões de pessoas ocuparam praças e ruas, exigindo reformas políticas, eleições livres e o fim da violência policial. Mobilizações semelhantes ocorreram na Líbia e no Iêmen, onde os protestos evoluíram para conflitos armados e crises prolongadas. Na Síria, atos inicialmente pacíficos contra o governo de Bashar al-Assad foram reprimidos com violência, desencadeando uma guerra civil de grandes proporções, com impactos regionais e globais.
Razões e origens – Os motivos comuns que culminaram na Primavera Árabe estão associados a fatores estruturais. Entre eles, destacam-se o alto desemprego juvenil, o aumento do custo de vida, a concentração de renda, a corrupção sistêmica e a ausência de liberdades civis. Em muitos países, eleições controladas, censura à imprensa e repressão a opositores alimentaram um sentimento generalizado de frustração. A combinação desses elementos criou um ambiente propício para explosões sociais, que encontraram na mobilização popular uma forma inédita de expressão em escala regional.
Além disso, a ampliação do acesso à internet e às redes sociais por parte dos jovens desempenharam papel central nesses levantes. Plataformas digitais foram usadas para organizar protestos, compartilhar informações em tempo real e contornar a censura estatal. Embora não tenham sido a causa dos movimentos, as redes ampliaram sua visibilidade e facilitaram a articulação entre grupos diversos. Imagens e relatos difundidos on-line ajudaram a mobilizar apoio internacional e a pressionar governos, tornando a Primavera Árabe um dos primeiros grandes ciclos de protesto da era digital.
As consequências desses movimentos sociais variaram significativamente entre os países. Na Tunísia, houve avanços institucionais iniciais, com reformas políticas e eleições, ainda que o país tenha enfrentado retrocessos posteriores. Em outros contextos, como Síria, Líbia e Iêmen, os protestos resultaram em instabilidade prolongada, conflitos armados e crises humanitárias. Em vários países do Golfo, manifestações foram contidas por meio de repressão ou concessões econômicas pontuais, preservando estruturas de poder existentes.
Apesar das diferenças de desfecho, a Primavera Árabe alterou de forma duradoura o debate político na região. O medo de contestação diminuiu, e temas como direitos civis, participação política e justiça social passaram a integrar de forma mais explícita o discurso público. Mesmo onde regimes permaneceram no poder, a experiência dos protestos deixou marcas profundas na relação entre Estado e sociedade.
Irã – Esse legado ajuda a compreender mobilizações mais recentes, como as ocorridos no Irã. Embora não seja um país árabe e possua contexto político e religioso distinto, há paralelos importantes. As manifestações iranianas, intensificadas especialmente a partir de 2022, também expressam insatisfação com a repressão estatal, restrições a direitos civis e dificuldades econômicas. Assim como na Primavera Árabe, mulheres e jovens têm desempenhado papel central, e as redes sociais estão sendo fundamentais para a circulação de informações e denúncias.
Especialistas apontam que os protestos no Irã não constituem uma continuidade direta da Primavera Árabe, mas dialogam com seu legado ao evidenciar que demandas por liberdade e dignidade seguem presentes no Oriente Médio ampliado. A experiência dos levantes de 2011 mostrou tanto o potencial transformador das mobilizações populares quanto os riscos de repressão, fragmentação e violência quando reformas não são implementadas.
Em retrospecto, a Primavera Árabe não produziu um resultado homogêneo ou linear, mas inaugurou um ciclo político na região. Ao desafiar regimes consolidados e expor tensões sociais profundas, esses movimentos redefiniram a forma como o mundo observa o Oriente Médio e o norte da África. Mais de uma década depois, seus ecos continuam a influenciar protestos, debates e disputas políticas, revelando que as questões levantadas naquele período permanecem em aberto.
Texto: Arnaldo F. Vieira – Ascom Subseção/SP
Crédito da imagem: Joel Carillet