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Antes da candidatura – Como os partidos procuram ampliar a participação das mulheres na política

Núcleos femininos, cursos de formação e preparação de novas lideranças mostram que o incentivo à presença das mulheres na política começa muito antes das eleições e pode ser decisivo para transformar filiação em participação efetiva

Quando uma mulher aparece na urna eletrônica como candidata, existe uma trajetória anterior que raramente recebe a mesma atenção. Antes do registro eleitoral, é preciso despertar o interesse pela vida partidária, oferecer formação e criar condições para que novas lideranças encontrem espaço dentro das próprias legendas. Em um país onde as mulheres são maioria entre os eleitores, mas ainda ocupam uma parcela bem menor dos cargos políticos, essa etapa anterior à campanha tornou-se uma das principais estratégias para ampliar a participação feminina.

A legislação brasileira é conhecida por determinar um percentual mínimo de candidaturas de cada sexo nas eleições proporcionais. Há, entretanto, outro mecanismo menos conhecido. A Constituição estabelece que os partidos devem aplicar pelo menos 5% dos recursos do Fundo Partidário na criação e manutenção de programas destinados a promover e difundir a participação política das mulheres. Diferentemente do financiamento eleitoral, esse dinheiro pode sustentar atividades permanentes de formação e incentivo à presença feminina na vida partidária.

Na prática, boa parte desse trabalho acontece por meio dos núcleos femininos mantidos pelas próprias legendas. São estruturas que procuram aproximar novas filiadas, formar lideranças e preparar mulheres que futuramente poderão ocupar funções partidárias ou disputar eleições. Embora possuam orientações ideológicas diferentes, vários partidos brasileiros mantêm organizações desse tipo.

Um exemplo é o Mulheres Republicanas, movimento ligado ao partido REPUBLICANOS. Durante os últimos anos, sob a liderança da senadora Damares Alves, a organização promoveu ações de mobilização e capacitação em diferentes estados. Em março de 2026, a deputada federal Liziane Bayer assumiu a secretaria nacional do movimento, dando continuidade às atividades voltadas à formação política feminina. Entre essas iniciativas está o programa “Você, Eleita 10, Formando Mulheres para o Futuro”, criado para preparar candidatas e equipes de campanha. As atividades trabalham conhecimentos relacionados à legislação eleitoral e à comunicação política. Em 2026, uma nova edição passou a percorrer os estados como parte da preparação para as eleições gerais. O movimento mantém ainda a campanha “Mulher, Tome Partido!”, destinada a estimular maior participação feminina na política partidária.

A atuação não fica restrita à preparação eleitoral. O Mulheres Republicanas mantém frentes temáticas e já desenvolveu atividades relacionadas à saúde e à inclusão social. A criação de espaços como Republicanas do Agro e Garotas Republicanas procura aproximar mulheres a partir de suas áreas de atuação ou faixas etárias, permitindo que o primeiro contato com a política aconteça por meio de assuntos presentes em seu próprio cotidiano.

Outros partidos seguem caminhos semelhantes. O PSDB Mulher possui uma tradição de programas de formação política que remonta aos anos 2000. Oficinas realizadas em diferentes estados deram origem a materiais específicos de capacitação, abordando temas como cidadania e funcionamento do Estado. Mais recentemente, o movimento passou a oferecer formação para pré-candidatas e mulheres que já exercem mandatos. Já no MDB, a estrutura feminina possui previsão no próprio estatuto partidário. O MDB Mulher Nacional tem autonomia para criar programas destinados à participação política das mulheres. O documento prevê atividades regulares para filiadas e interessadas e estabelece que parte de seus recursos seja utilizada em cursos, palestras, seminários ou congressos. O objetivo declarado inclui aumentar o número de filiadas e qualificar aquelas que já integram a legenda.

Essas experiências revelam uma questão importante: A participação feminina não começa necessariamente com o desejo de disputar uma eleição. Muitas mulheres ingressam na política a partir de movimentos comunitários, organizações profissionais ou da defesa de determinadas causas. Os núcleos partidários podem funcionar como uma ponte entre essa atuação social e a política institucional.

Há também obstáculos que precisam ser enfrentados dentro dos próprios partidos. A preparação de uma candidatura exige conhecimento das regras eleitorais e acesso às estruturas de decisão da legenda. Para muitas mulheres, significa ainda conciliar a atividade política com responsabilidades familiares e profissionais. A violência política de gênero acrescentou outro problema a esse cenário e passou a aparecer entre os temas tratados nos programas de formação. O PSDB Mulher, por exemplo, incluiu seu enfrentamento entre as prioridades da organização.

Por isso, atrair mulheres apenas às vésperas das eleições dificilmente resolve a desigualdade de representação. Uma candidata competitiva costuma surgir de uma trajetória construída anteriormente. Ela precisa conhecer a estrutura partidária e estabelecer relações com sua comunidade. Também precisa encontrar dentro da legenda oportunidades para exercer liderança antes mesmo de pensar em concorrer a um cargo.

Essa preocupação ganhou importância adicional em 2026. Dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que, entre 20.560 candidaturas consideradas para o cálculo da distribuição dos recursos públicos de campanha neste ano, 7.165 são de mulheres, o equivalente a 34,85%. O percentual supera o mínimo exigido, mas continua distante da composição do eleitorado brasileiro, no qual as mulheres são maioria.

O incentivo partidário, portanto, não pode terminar quando uma mulher aceita colocar seu nome na urna. Transformar presença em participação efetiva exige formação continuada e oportunidades dentro das estruturas das legendas. Também significa permitir que mulheres participem da definição dos programas partidários e das decisões tomadas muito antes do início de uma campanha.

Os núcleos femininos mostram que existe um caminho possível para isso. Cursos e encontros podem preparar candidatas, mas sua contribuição mais profunda talvez esteja em aproximar da política mulheres que nunca imaginaram participar dela. Quando essa aproximação ocorre de forma permanente, a candidatura deixa de existir apenas para atender uma exigência eleitoral e passa a ser consequência de uma trajetória política construída ao longo do tempo. Ampliar a presença feminina nos espaços de poder, portanto, não depende somente de reservar lugares nas chapas eleitorais. Depende também do que acontece entre uma eleição e outra. É nesse período, longe das urnas e muitas vezes distante da atenção pública, que partidos podem formar novas lideranças e transformar interesse por uma causa em participação política efetiva.

 

Texto: Arnaldo F. Vieira – Ascom Subseção/SP

Crédito da imagem: Magnific

 

Fontes:

Mulheres Republicanas – https://mulheres.republicanos10.org.br/

PSDB Mulher – https://psdb-mulher.org.br/

MDB Mulher – https://www.mdbmulher.org.br/category/mulheres/page/2/

Diretórios regionais devem usar 5% do fundo partidário para ações de mulheres na política, diz TSE – https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/05/23/diretorios-regionais-devem-usar-5percent-do-fundo-partidario-para-acoes-de-mulheres-na-politica-diz-tse.ghtml

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